Relatos de uma Viúva - Andréia Corradi #001

 No dia 28/05/2018 meu marido, meu filho e eu fizemos uma fondue de queijo pra comemorar uma mudança que eu teria no meu trabalho, a cidade estava deserta por causa da greve dos caminhoneiros, meu filho estava sem escola e tinha ficado comigo no trabalho e nós fomos e voltamos juntos no carro da empresa que ele trabalhava que ainda tinha combustível. Meu marido deitou com meu filho pra contar história e rezar com ele pra ele dormir enquanto eu arrumava a cozinha, fui para o banho e quando saí ele não estava em casa, achei que tivesse descido na garagem, mas ele começou a demorar, vi que os telefones dele não estavam sob a bancada e liguei, já estava desligado, começava ali meu desespero.

Meu marido tinha 40 anos, era engenheiro mecânico, tinha TAG (transtorno de ansiedade generalizada), fazia acompanhamento com psiquiatra há muitos anos, porém era extremamente resistente ao tratamento, não aceitava fazer terapia e ia e vinha com os remédios, quando ficava mal com muitas crises de pânico seguia à risca o tratamento, bastava começar a melhorar que começava a rejeitar tomar remédio todos os dias. Ele era bem sucedido, não tinha dívidas, não tinha inimizades, tinha um bom trabalho, casa, um carro que tinha acabado de comprar na garagem, nenhum problema grave a resolver.




Passada meia hora meu telefone tocou e um colega do trabalho disse que ele tinha passado na casa dele e entregado o carro da empresa e que ele ficou sem entender e queria saber se estava tudo bem, foi a última pessoa conhecida que o viu. Na manhã do dia 29/05 avisei à minha família e à família dele que eu não sabia onde ele estava e que tinha medo do que ele podia querer fazer. Meus irmãos imediatamente se deslocaram pra minha casa (morávamos em cidades diferentes), minha irmã e meu sobrinho ficaram com meu filho em casa e meu irmão foi comigo procurar meu marido, eu já tinha conseguido rastrear durante a madrugada o telefone dele, sabia que tinha ido para o centro com um Uber e a conta bancária e sabia que ele tinha sacado um dinheiro e transferido, o máximo permitido pelo caixa eletrônico, pra minha conta e isso reforçava meu medo do que ele podia estar planejando, a agência que ele esteve ficava perto da rodoviária de Belo Horizonte, fui até lá, fui nos lugares que ele tinha costume de passar, entrei em contato com a empresa dele e ele não tinha aparecido por lá, meu marido era extremamente responsável e jamais faltava ao trabalho mesmo que estivesse doente, então ele simplesmente não aparecer na empresa e não avisar reforçava ainda mais que algo grave estava acontecendo.

Procuramos muito e não encontramos nada, ele desconectou tudo logo depois de pegar o Uber e nunca mais conectou nada, como sacou dinheiro também não mexeu mais em nada do banco, meus irmãos levaram meu filho e eu fiquei sozinha em Belo Horizonte pra procurá-lo, fui à polícia, ao IML, a hospitais e já não tinha mais combustível pra ficar rodando por causa da greve, passei horas em filas de posto de gasolina sem conseguir abastecer e no dia 31/05 (corpus christi) fui à missa 7 da manhã, chorando já sem forças pelo terceiro dia sem qualquer notícia ou sinal e eu rezava pedindo a Deus que me mostrasse onde ele estava, saí da missa e fui pra fila do posto de gasolina, não tinha como procurá-lo sem combustível, a gasolina chegou meio dia, abasteci R$100 que era o máximo permitido por vez e voltei pra fila, às 16 horas consegui abastecer novamente e completar o tanque, tinha chupado apenas um picolé de limão, saí dali e sentei à beira da Lagoa da Pampulha, eu não tinha mais onde procurá-lo e meu coração dizia que ele não estava em BH mesmo que eu não soubesse onde ele poderia estar. Sentei na grama, chorei, rezei, implorei que ele me desse um sinal, a noite chegou, atravessei a rua e sentei numa lanchonete pra tentar comer, mas o máximo que consegui foi uma mordida em um salgado, peguei o carro e saí pela cidade, a procissão de Corpus Christi subia a Avenida Afonso Pena no centro de BH, parei o carro, debrucei na janela do carro olhando cada pessoa pra ver se o via, rezando que Deus me mostrasse onde ele estava, claro que não o vi, voltei pra casa, tomei um banho quando recebi uma mensagem do meu sobrinho dizendo “Tia Deia olha essa mensagem”.




Nós publicamos nas redes sociais o desaparecimento dele e compartilhamos o máximo que conseguimos, meu telefone tocava o tempo todo, cada vez que alguém conhecido recebia a mensagem com a foto dele, me ligava, muitos dando ideias do que fazer, muitos se solidarizando comigo, muitos amigos querendo me fazer companhia mesmo que pelo telefone, eram muitas pessoas rezando por nós. E graças a essa corrente a nossa mensagem caiu no telefone de uma colega de faculdade do meu sobrinho e ela também recebeu a mensagem da funerária de Bom Despacho que dizia que “havia sido encontrado um homem alto, pele branca, cabelos escuros, aparentando 40 anos, em auto extermínio na Ponte de Ferro do Rio São Francisco, caso alguma família estivesse procurando por alguém assim que entrasse em contato com a funerária.”

Meu marido dizia que quando ele morresse ele queria ser cremado e que as cinzas dele fossem jogadas na Ponte de Ferro do Rio São Francisco em Bom Despacho (um lugar que ele foi pescar muitas vezes na infância). Bastou eu ler o lugar que imediatamente eu soube que era ele, ligamos pra funerária e confirmamos que era mesmo ele. O rapaz da funerária recebeu o corpo trazido pela Polícia Civil pra enterrar como indigente, mas enquanto ele preparava o corpo ele percebeu que meu marido era muito bonito e bem cuidado e pensou “ele deve ter uma família que está desesperada”, ele rezou pedindo a Deus que ajudasse a encontrar a família daquele homem e decidiu segurar o corpo na funerária até o dia seguinte. Pegou o telefone, escreveu a mensagem e compartilhou nos grupos de whatsapp, o tio da colega de faculdade do meu sobrinho tinha uma fazenda em Bom Despacho, recebeu a mensagem e compartilhou no grupo da família, a sobrinha leu e se lembrou da mensagem do meu sobrinho que estava com o tio desaparecido. Assim as duas mensagens se cruzaram e nós o encontramos. 

Deus cuidou de mim em cada detalhe, tanto eu rezei pra encontrá-lo do jeito que ele estivesse quanto o funcionário da funerária rezou pedindo pra me achar, eu tinha ficado naquela fila do posto o dia inteiro e agora tinha combustível pra buscá-lo em Bom Despacho, tinha feito muito frio à beira do rio que ele se matou e por isso foi possível segurá-lo naquela funerária que não tinha câmara fria. Mesmo na tragédia Deus cuidava de mim. Peguei o carro e fui busca-lo junto com meus irmãos e um sobrinho. De madrugada eu chegava com ele em Itaúna pra dar a ele um velório e um enterro digno, mesmo com toda a crise de combustível o velório ficou lotado de amigos.





Quando o dia amanheceu fui na minha irmã acordar meu filho e dar a ele a notícia (ele tinha 8 anos), escolhi não inventar nenhuma história, mas também não podia simplesmente dizer que tinha sido suicídio, sabia que ele precisaria ser preparado para entender tudo aquilo, então apenas disse que o papai tinha morrido e que juntos nós entenderíamos a morte dele depois, ele chorou demais, quis ir ao velório, abraçou o pai e dizia “eu te amo tanto papai, eu te amo tanto papai”, era possível ouvir o choro coletivo de quem estava no velório naquele momento, ele ficou o tempo que suportou e foi embora com minha irmã novamente (madrinha dele).

No dia 01/06, uma sexta-feira após Corpus Christi sepultei meu marido, no domingo entrei no carro com meu filho e voltei pra BH, apenas nós dois pra seguirmos a vida, eu não sabia o que seria de nós, só sabia que o único caminho era voltar pra casa e encontrar o novo caminho e que novamente Deus cuidaria de mim nos mínimos detalhes.


-------------------------------------------------------------------------


Esse é o relato da Andréia Corradi, integrante do Jovem e Viúva.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resumo de aulas sobre BPO Financeira

Nossa História...